Era uma vez...
Era uma vez um médico.
Não. Era uma vez um sonhador.
Era uma vez um médico sonhador, cujo sonho era poder oferecer às nossas crianças a sua experiência e poder devolver-lhes a vida que lhes fora roubada por uma qualquer maldita doença hepática.
Sonhou com uma equipa médica e cirúrgica que o acompanhasse no seu objectivo, sonhou ter os meios ideais para poder transplantar as nossas crianças com a qualidade que elas merecem.
Cada dia era para ele mais um dia em que precisava de salvar uma criança, em que precisava de devolver a vida a uma criança.
Mas também era mais um dia em que acordava de manhã com a certeza de que "hoje" ainda não
era o dia em que o seu sonho se realizaria. Todos os dias ele oferecia a sua experiência a um ser humano e lhes garantia que iria dar o seu melhor, mas por dentro sabia que o seu melhor não era suficiente. Era preciso mais para que as nossas crianças tivessem o tratamento de excelência que merecem, que todos merecemos.
Um dia, este sonhador ficou cansado, desiludido. Afinal, todos os seus esforços foram insuficientes. No nosso país, as crianças com problemas hepáticos são apenas um número e felizmente um número pequeno. Felizmente para muitos, infelizmente para aqueles que têm a necessidade de um transplante.
Com um número tão pequeno por ano, não se justifica investir neste projecto. O médico sonhador percebeu que, enquanto não tomasse uma atitude extrema, o seu sonho não passaria a realidade.
O sonho tornar-se-ia no seu maior pesadelo pois este médico sonhador é apenas uma voz, e neste país quase não se ouve.
Assim, tomou uma decisão, uma decisão pensada com muito cuidado, com muita responsabilidade, como tudo a que se compromete na vida.
Não, não é uma história fictícia. É a vida de um Homem, de um Cirurgião que farto de denunciar e tentar melhorar o que se passa na área da transplantação pediátrica hepática em Portugal, retirou-se por um Bem Maior: a vida das nossas crianças. Neste momento, prosseguir com a sua actividade era pôr em risco as nossas crianças.
Quando vejo as notícias que têm saído na imprensa este mês, fico sem palavras! Como é que é possível?!
CIRURGIÃO SÓ VOLTA COM GARANTIA DE QUALIDADE
" Emanuel Furtado, o único cirurgião que em Portugal faz transplantes hepáticos pediátricos, abandonou os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) há quase um ano por considerar que o programa estava "em risco em termos de qualidade". Nessa altura os HUC realizavam entre 12 a 15 transplantes hepáticos em crianças por ano. Ontem, ao CM, não afastou a hipótese de regressar, mas exige garantias de "qualidade e perspectivas de futuro".
Apesar de estar a trabalhar actualmente no IPO de Coimbra, Emanuel Furtado diz que, "tendo uma competência especial nessa área, seria inaceitável dizer que não daria a sua colaboração". "Não ponho essa hipótese de lado", refere, mas adianta: "Nunca aceitaria colaborar num projecto que não tivesse como objectivo começar naquele patamar de qualidade em que ficámos".
Desde que o programa foi suspenso as crianças passaram a ser encaminhadas para o Centro de La Paz, em Madrid, que já transplantou com sucesso dois portugueses. "Das escolhas possíveis sempre considerei que Espanha seria a primeira", refere ao aludir aos "bons níveis de resposta". Acrescenta, aliás, que o centro de Madrid é "um dos bons a nível mundial".
PERFIL
Emanuel Furtado
Filho de Linhares Furtado – responsável pela criação da equipa de transplantes hepáticos em Coimbra –, Emanuel Furtado é o único cirurgião em Portugal de transplantes hepáticos pediátricos. Trabalhou nos HUC e agora está no Instituto Português de Oncologia."

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A little love...